Relações étnico-raciais e educação: suportes para a socialização e construção de relações de resiliência. 

por Catharina Pereira*

raça negraNo mês em que se comemora a abolição da escravatura no Brasil, as instituições de ensino se inclinam a discutir a questão racial. Assim, considerando a legislação educacional, existe a Lei n° 10.639/2003, que torna obrigatório que os estabelecimentos de ensino considerem a cultura africana e afro-brasileira, enquanto constituinte da formação do nosso povo e fornece outras providências. Existem ainda os parâmetros para atuação na temática, além de coleções de cunho didático e pedagógico do ministério da educação para a aplicação das leis.

Há diversos estudos da sociologia e antropologia1 que tratam da questão étnico-racial nas escolas. Nesses espaços, empiricamente percebem-se exemplos de como a socialização entre as diferentes etnias, pode ocorrer de forma negativa. Uma aluna negra, ao usar o cabelo estilo black Power, certamente ouvirá comentários preconceituosos por parte dos colegas, assim como, alunos negros possivelmente ouvirão ofensas de cunho racista em desentendimentos. Esses são exemplos clássicos de discriminação que afetam a auto estima de nossas crianças e podem contribuir para o baixo rendimento escolar, exclusão, evasão e/ou reprovação. Se considerarmos a cor da pele e o local de moradia, as chances de se sofrer tais discriminações se multiplicam.

Diante da rotina escolar e considerando o convívio familiar, como podemos ensinar as crianças formas não discriminatórias de socialização? Uma vez ocorrida a discriminação, como estabelecer a relação de resiliência?

Respondendo a primeira questão aqui levantada, as crianças precisam ser ensinadas que o nosso país foi formado por diferentes povos e que a diversidade cultural constitui a nossa identidade enquanto nação. Assim, entre outras, devem aprender a respeitar as diferenças; a negar as teorias de superioridade entre as raças (não há distinção biológica entre os seres humanos). Nas relações familiares, é fundamental que sejam oferecidas bonecas também negras; que se excluam o discurso preconceituoso ao que remete à matriz africana; que se construam relações de cuidado e ajuda mútua superando o medo e a desconfiança pelos afro-brasileiros; e, finalmente, que se apresente a questão da empatia, trazendo ao subconsciente da criança à reflexão necessária a vida social: e se fosse comigo?

Uma vez ocorridas ações discriminatórias, deve-se trazer à luz da reflexão todos esses questionamentos, pois possibilitam que haja uma ruptura com tais comportamentos e, para que se estabeleçam junto à criança relações de resiliencia, é necessário que se valorize a identidade dos (as) aluno (as) negro (as) com elogios aos penteados de origem africana; aceitação sem discriminação das diferenças, considerando que essas não podem gerar nenhum tipo de desigualdade; apresentação de líderes negros na história mundial; exclusão da abordagem histórica, onde a vida do negro se limita  à escravidão; exposição do continente africano superando as questões negativas; eliminação de apelidos vexatórios sobre cor de pele; prevenção à prática do bullying, entre outras.

Além das questões supracitadas, o reforço na auto estima e na identidade de todas as crianças (aqui considerando as brancas e não brancas), possibilita que se construam interações positivas,  mas para isso, é fundamental que família e escola estejam juntas, auxiliando nessa transformação.

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1 Para maiores esclarecimentos sobre a temática relacionada à infância veja Fazzi, Rita de Cássia. “O drama racial de crianças brasileiras: socialização entre pares e preconceito”. Belo Horizonte: Autêntica, 2006 e, da mesma autora, “Preconceito racial na infância”. Rio de Janeiro, 2000. Tese (dout.). Instituto Universitário de Pesquisas do Rio e Janeiro. Além disso, há os clássicos da literatura que se debruçam na questão étnico-racial como Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Octávio Ianni, Antônio Guimarães, Oracy Nogueira, entre outros.

* Catharina Pereira foi professora do Fundamental – 4o e 5o anos – até julho de 2016 na escola Dom Cipriano Chagas e hoje está em busca do seu sonho, ajudar mais pessoas através da assistência social.
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